24 outubro 2008

Tecnofilia e Tecnofobia como Formas de Ocultação da Problemática da Educação Escolar



Um percurso pela história e prática da educação possibilita a localização dos envolvidos no ensino escolar em um contínuo cujos extremos representam duas porteiras claras diante da possibilidade de considerar o conhecimento tecnológico nos processos de ensino. Em um extremo, seriam situados os que denominarei de tecnófobos, ou seja, aqueles para quem o uso de qualquer tecnologia (instrumento, sistema simbólico ou organizador) que eles não tenham usado desde pequenos e tenha passado a fazer parte da sua vida pessoal e profissional representa um perigo para aqueles valores que eles têm.



No extremo oposto seriam situados os tecnófilos, ou seja, aqueles que encontram em cada nova contribuição tecnológica, principalmente naquelas situadas no âmbito da informação, a resposta final para os problemas do ensino e da aprendizagem escolar.
Um dos primeiros exemplos de tecnofobia pode ser encontrado na postura de Sócrates diante da utilização da escrita. Segundo Platão, no diálogo de Fedro, Sócrates considerava que “se os homens aprendem à escrita, o esquecimento será implantado em suas almas. Deixarão de exercitar a memória porque confiarão no que está escrito dando a palavra a palavras que não podem falar em sua própria defesa ou presentear a verdade de forma adequada”.




O papel do rádio, da televisão, do cinema, dos computadores tem sido muitas vezes criticado, a partir de diferentes posições, pelo impacto hipotético sobre a população e, logicamente, sobre os alunos.
Quanto a sua utilização no ensino, as posturas contrárias ao seu uso costumam basear-se na perda das habilidades e conhecimentos considerados básicos que seu uso representa.
Neste sentido alguns teóricos e práticos da educação propõem “defender” os alunos dos perigos das novas tecnologias. Esta opção não costuma notar que, sem a possibilidade de decidir sobre os seus avanços e aplicações em todos os níveis da vida cotidiana, o desconhecimento dos aspectos técnicos, políticos, econômicos e éticos destas tecnologias, pode impedir que os alunos desenvolvam a sua própria posição informada diante delas e o joguem em uma ignorância perigosa sobre o seu próprio mundo. Apesar de que, obviamente, a escola não é a única fonte de aprendizagem.




No outro extremo desta perspectiva, encontramos aqueles que saúdam a escrita como uma liberação e uma forma de acumular e expandir o conhecimento, os que viam nos livros a solução para os problemas do ensino, como uma forma de seu trabalho e de possibilitar aos alunos o acesso mais amplo e diversificado à informação ou ao conhecimento acumulado.
O resto das tecnologias da informação, embora não tão amplamente introduzidas e usadas nas escolas, têm sido recebidas com o mesmo fervor pelos entusiastas de cada meio.




A proliferação da utilização das aplicações das novas tecnologias da informação e da comunicação, desde os computadores pessoais e os sistemas multimídia às redes de comunicação, tem levantado nos últimos 20 anos enormes expectativas no âmbito da educação escolar. Diversas vezes magnificou-se a capacidade destes aparelhos para lidar com a informação, para facilitar a compreensão de conceitos abstratos e a resolução de problemas; para aumentar a motivação dos alunos pela aprendizagem; para facilitar a tarefa dos professores, etc.



Essas duas posições até aqui exemplificadas, embora aparentemente possam parecer radicalmente diferentes, têm muito em comum. A postura tecnófoba esquece que, rejeitando a consideração e qualquer variação no trabalho docente, está usando mecanicamente um conhecimento tecnológico que aceita e reproduz sem reflexão, tornando-se uma técnica fossilizada que não levam em consideração as variações do contexto que a está aplicando. Enquanto isso, a postura tecnofila somente considera “tecnologia” as máquinas e aparelhos e o conhecimento elaborado desde âmbitos que tem pouco a ver com os problemas aos quais a educação escolar deve dar respostas, desconsiderando o conhecimento prático e teórico acumulado por anos de estudo e experiência. Neste sentido, ambas as perspectivas têm em comum não reconhecer a natureza do problema que pretendem resolver por meio da sua atuação, o que as situa em uma posição a partir da qual lhes é difícil dar resposta à problemática da educação escolar.

4 comentários:

Marcel disse...

Tecnofobia e tecnofilia eis a questão. Talvez seja um lado que muitos iram de seguir, mas qual é o cero? Nenhum. Não se deve fugi de algo só por que não teve contato com ele anteriormente, imagina se tivessemos seguido a ideia de Socrates e abolido a escrita do nosso mundo. Quanta coisa não haveria se perdito. E porquê? Só por causa do medo de o que temos ser deixado para traz. Não é uma boa ideia. Temos é que aprender a utilizar o que é novo, mas não sendo um tecnofilo, usando-a demasiadamente achando que assim esta resolvendo o problema do ensinar corretamente. É preciso um pouco de didatica para usar a tecnologia corretamente sem demasia. Então nao sejamos tecnofobos e nem tecnofilos, mas educadores que estão abertos a novidades e interesse em utiliza-las corretamente.

VI Período de Pedagogia - UFMA disse...

É interessante a diversidade de opiniões que se colocam em frente as novas tecnologias da educação.De um lado os que tem fobia a tecnologia de outro os que colocam a tecnologia como verdadeiros deuses e acabem colocando toda a responsabilidade de solução em cima dela. Bom seria colocar a tecnologia como um complemento no processo de ensino, não tendo medo dela e nem a colocando como a superação de todos os problemas da sociedade, mas sim como uma ponte a proporcionar uma melhor qualidade na educação.

PeDaGoGoS disse...

A utilização e a importância do que é novo andam juntas, devemos ser capazes de conciliar essas duas vertentes, pois a maneira que se utiliza algo e a importância que damos ao mesmo interfere muito no resultado que queremos obter, quando falamos na utilização de tecnologias na informação percebemos a importância que elas tem e o endeusamento e rejeição que as mesma possuem. Nós como educadores devemos saber utilizar e dar importância a tudo que possamos utilizar dentro do processo de ensino-aprendizagem mas, claro tudo na medidad certa. Lívia

Susann disse...

Há uma ênfase muito grande quando lemos o texto, no que diz respeito à presença indispensável da tecnologia em nosso cotidiano, nos acostumamos tanto a ela, que acabamos ficando dependentes. Essa suposta dependência, criada por nos mesmo, pode ser usada para a melhoria ou para o fracasso de nossas vidas.

Susann Manuella